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Os manuscritos de Qumran

Desde que descobertos em meados do século passado, os manuscritos de Qumran se tornaram a principal atração da arqueologia bíblica, aliás, seu maior achado. Ocorrido de modo acidental, o fato provocou uma verdadeira disputa pelo “ouro”, somente, contudo, depois que sua verdadeira origem fora identificada. Os manuscritos tomaram lugar central ao redor do qual giravam os mais diversificados interesses, sejam religiosos, sejam científicos ou judeu-nacionalistas etc. Tendo conquistado tamanha relevância no mundo pós-guerra, os manuscritos, após dois milênios abandonados à sorte das grutas vizinhas ao Mar Morto, enfim ganham novamente zelo e atenção, desta vez por parte da comunidade mundial. Mais que adequadamente protegidos no santuário do livro, agora têm o cuidado de mãos hábeis e prudentes no manuseio e de olhos de interpretação aguçada, criteriosa, respeitosa e portadora de vasto saber.

Assim valorizados, cada manuscrito, cada letra teve seu sentido revelado, não obstante ainda haja muito que ser compreendido. Encontrados e protegidos, foram arduamente estudados, submetidos aos mais modernos testes e, com precisão, datados. Começaram, então, a dispensar suas riquezas de informações, lançando luz sobre o passado.

Após anos de intenso labor, a tradução dos manuscritos foi, enfim, recentemente concluída e os textos oficiais publicados em coleção da Oxford University Press.

As características estritamente judaicas de alguns textos contribuíram enormemente na compreensão das origens do judaísmo e de suas formas antigas, uma vez que o que diziam não passavam pela interpretação helenizada ou romanizada de historiadores vinculados ao poder do Império.

O perfil do conteúdo dos rolos traçou o perfil dos homens de Qumran. De caráter fortemente apocalíptico, a comunidade essênia partilhava, a seu modo, dos sentimentos e aspirações de vários grupos judaicos contemporâneos a ela e, como eles, lançaram mãos dos mesmos recursos literários e estratégias ideológicas para não deixarem morrer a esperança. A apocalíptica, em toda sua significação, torna-se, assim, elemento identificador dos traços da comunidade de Qumran e mesmo instrumental de sobrevivência.

Distantes do Templo de Jerusalém e de tudo o que ele representava, os homens de Qumran, como piedosos aventureiros de um novo êxodo no deserto, cuidaram de cumprir com o compromisso de fidelidade à Lei, ainda que agora condicionados por fatores outros que os que determinavam a prática em torno do Templo. Entendiam-se predestinados a partícipes de uma “Nova Aliança” eterna e irrevogável. Como deveria ser nessa “Nova Aliança”, a Lei mosaica era o fundamento da comunidade, sustentando a busca pela santidade a que a mesma Lei convocava, sobretudo nos tempos escatológicos e derradeiros que acreditavam estar vivendo, uma vez que seu caráter apocalíptico fundia-se com seu nomismo rigoroso.

Exigentes consigo mesmos e tendo um projeto muito claro, os homens de Qumran estabeleceram as normas éticas que regiam a comunidade, em perfeita sintonia com a teologia que lhes era própria, e que moldaram a organização interna da seita numa racionalização da solidariedade e definiram o cotidiano de cada membro, segundo seu papel no grupo, em que autoridade e hierarquia eram conceitos tranqüilamente aceitos e defendidos muros adentro.

Contudo, as pretensões dos homens de Qumran ultrapassavam seus muros. Entendiam bem que sua vida “monástica” tinha um propósito ousado para os tempos escatológicos que julgavam estar vivendo. Suas pretensões cruzavam o deserto e chegavam ao Templo, centro da vida política e religiosa do judaísmo. Visavam, esperavam e acreditavam estar agindo de modo a antecipar uma nova ordem social e cósmica, a qual não viria sem as figuras fundamentais de seus messias e do próprio Deus. Eram eles que garantiriam a vitória sobre a arrogância de Roma.

Por Pe. Marcelo Previatelli